Em Conversa com Enivo: 20.000 intervenções urbanas e a energia da arte urbana de São Paulo
Em São Paulo, as paredes raramente estão em silêncio. Elas carregam o pulso visual de uma das cenas de arte urbana mais dinâmicas do mundo, sobrepostas por décadas de graffiti, pixação, murais e mensagens políticas que transformam a cidade em uma tela em constante evolução. Dos edifícios verticais do Centro aos bairros da Zona Sul, artistas utilizam o espaço público para afirmar presença, identidade e imaginação.
Entre as vozes que moldam essa linguagem visual está Marcus Vinícius, conhecido como Enivo, um artista cuja a trajetória reflete tanto a energia das ruas de São Paulo quanto o diálogo crescente entre arte urbana e prática contemporânea.
Nascido em 1986 no bairro do Grajaú, Enivo teve o seu primeiro contato com uma lata de spray aos doze anos. O que começou como graffiti rapidamente se transformou em um compromisso vital com a arte, resultando em mais de 20.000 intervenções espalhadas por São Paulo e por cidades ao redor do mundo.
Com o passar do tempo, a sua prática evoluiu para além da parede, mantendo a intensidade e a urgência da rua. As suas pinturas combinam referências do Afrofuturismo, identidade afro-brasileira e observações da vida contemporânea, frequentemente incorporando símbolos e códigos visuais de uma cultura digital globalizada.
GraffitiStreet
Você pegou em uma lata de spray pela primeira vez aos doze anos no Grajaú. O que você lembra desse momento e como as ruas começaram a moldar a sua identidade como artista?
ENIVO
Eu queria muito existir para o mundo, nasci em um bairro pobre e distante do centro da cidade, sem saber o que era certo ou errado, eu admirava os bandidos e traficantes, eram minha referencia, por que ao meu ver, eles viviam muito bem, tinham ótimos carros e motos e namoradas bonitas.
Eu queria ser igual a eles, com 11 anos de idade eu pegava em armas e cometia pequenos delitos. Até que um dia eu estava andando de bicicleta em um bairro proximo, senti sede e toquei na casa de um colega, que era amigo de escola do meu vizinho, que também desenhava. ele me chamou para entrar na casa dele, me deu àgua, me levou para seu quarto e me mostrou suas pastas de desenho. fiquei muito feliz e inspirado pela confiança concedida ao colega do colega. quando estava para ir embora, ele me deu uma coisa enrolada em uma sacola, me disse para eu levar embora porque aquilo era proibido e a mãe dele poderia brigar com ele. Então eu peguei essa sacola e levei para minha casa, eu pensava que poderia ser uma arma,,, quando cheguei em casa eu fui diretamente para a laje onde abri a sacola, e la estava uma lata de Spray.
Com 12 anos de idade, quando eu apertei o aerosol eu senti a maior alegria da minha vida, uma sensação de liberdade indescritível,. entendi que aquela era minha arma de ideias, que me acompanha por toda minha vida, desde então nunca mais pensei em outra coisa que não fosse a arte. ha 27 anos Tenho uma sincera devoção e amor a arte!
GraffitiStreet
Você se lembra da primeira vez em que pintou algo em uma escala que lhe pareceu monumental? O que é que você sentiu nesse momento?
ENIVO
Adorei a pergunta, eu justamente estava pensando sobre isso ontem! A minha primeira pintura em grande escala foi em 2006, criei um projeto independente chamado “quem compartilha cresce” e convidei meus amigos para me ajudar a pintar esse enorme mural. Convidei também Mc’s que escreveram musicas de Rap, Fotografos e videomakers para acompanhar essa produção, passados 20 anos, o mural continua lá, resistindo as marcas do tempo e me trazendo uma belíssima memória de tempos e amigos que já partiram deste plano!
GraffitiStreet
São Paulo é frequentemente chamada de uma das capitais mundiais da arte urbana. O que torna a energia criativa da cidade tão única?
ENIVO
São PAulo é uma cidade Monumental, muito Grande . Aqui se concentram mais de 10.000 artistas urbanos que disputam as paredes da cidade em busca de reconhecimento, nem que seja pelo nosso próprio movimento. Sou bem relacionado e conheço muita gente. Mas o diferencial de são Paulo comparado as outras cidades e países que já visitei é a grande diversidade de estilos, e tudo é muito original, observando as ruas vemos artes urbanas que vão do Hip Hop às artes contemporâneas, de pinturas com influências Regionais à pinturas super sofisticadas. São Paulo é um grande livro aberto, contando diariamente infinitas histórias!
GraffitiStreet
O Grajaú tem uma história muito forte no graffiti, e artistas como Alexandre da Hora (Niggaz) deixaram um legado poderoso ali. O que aquela geração significou para você enquanto crescia?
ENIVO
Muito antes do episódio em que ganhei a minha primeira lata de spray, eu já conhecia o Niggaz e o Jerry, eram meus amigos de infância, As familias eram amigas e eu frequentava suas casas. Quando eu era muito pequeno ia jogar video Game na casa do Alexandre da Hora , o Niggaz. ele interrompia os jogos para me mostrar suas inúmeras pastas de desenho. Assim que comecei a pintar nas ruas eles me apadrinharam e sem dinheiro algum, para nada, me levavam por toda são paulo para pintar nas ruas, nesses dias de fome, o Graffiti sempre foi meu principal alimento. Niggaz faleceu em 2003, muito jovem, aos 21 anos, deixando um legado imenso à toda geração seguinte. Duas semanas depois da sua morte, ele apareceu em meu sonho, falou que estava bem em seu novo plano astral e me disse que eu seria o novo Niggaz, desde então a minha dedicação foi total. 23 anos se passaram e eu penso todos os dias nesse amigo com muito carinho.
( obs: chorei enquanto escrevi isso, me tocou profundamente).
GraffitiStreet
Existem artistas, de São Paulo ou de outras partes do mundo, que realmente influenciaram você quando estava começando ou que ainda inspiram o seu trabalho hoje?
ENIVO
Como eu disse, o Niggaz é até hoje minha principal influência. Mas tenho muito respeito e me inspiro muito na arte urbana Mundial. A Fundação do Graffiti Brasileiro me inspirou muito. Tinho, Binho, OSGemeos, Speto, Nina, Vitché, Alexandre Orion, Herbert Baglione, Onesto são meus Herois, Quando tive acesso a internet, fiquei muito inspirado pela miss van e Hera Kut, que hoje são minhas grandes amigas. Também Futura 2000, Daim, Loomit que tive a oportunidade de conhecer e até pintar juntos com alguns deles…
GraffitiStreet
Você já realizou mais de 20.000 intervenções urbanas em várias partes do mundo. Depois de todos estes anos, o que é que ainda te dá motivação para sair e pintar mais um mural?
ENIVO
Todas as vezes que eu estou em frente a um muro, eu tenho a mesma sensação de quando peguei o spray pela primeira vez. é a mistura perfeita entre adrenalina e felicidade!
GraffitiStreet
Você estudou Belas Artes na Faculdade Paulista de Artes. Como é que essa experiência dialogou com seus instintos da rua? Isso mudou a forma como você vê a pintura?
ENIVO
Eu entrei na faculdade com 17 anos de idade. Eu já sabia o que eu queria. Cheguei lá entendendo apenas de Graffiti e Pixação. Estudar me fez ampliar os horizontes e enxergar a imensidão da arte em suas diversas linguagens.
GraffitiStreet
Depois de se formar, você passou anos ensinando arte em bairros periféricos e favelas. Como é que trabalhar com jovens dessas comunidades ampliou a sua compreensão sobre o poder social da arte?
ENIVO
Eu ainda continuo dando aulas informais. porém durante 10 anos eu fui Professor em diversas escolas e instituições. Nessa época eu cumpria o meu papel da melhor forma, mas eu não fazia noção da importância de tudo isso. passado os anos, essa semente plantada gerou lindos frutos. Hoje vejo alguns de meus antigos alunos, hoje adultos vivendo de arte, se destacando, abrindo suas próprias galerias e ateliês, trabalhando junto comigo em grandes projetos. Isso me deixa muito orgulhoso.
GraffitiStreet
Qual foi o maior mural que você já pintou até agora e pode nos contar mais sobre ele?
ENIVO
Eu não consigo mensurar muito bem dimensões, mas os mais significantes foram a minha primeira empena no centro da cidade, chamada xamã urbano, produzida pelo grande produtor Luan Cardoso, valorizo muito as minhas participações no NALATA Festival em São Paulo e minha participação na última edição do festival VULICA BRASIL em Brasília!
GraffitiStreet
A sua linguagem visual evoluiu das letras para obras figurativas com referências à identidade afro-brasileira e ao Afrofuturismo. O que catalisou essa transformação?
ENIVO
Quando a gente amadurece na vida, também amadurecemos na arte. E nesse caminho passamos a valorizar cada vez mais nossas Raízes, origem e imaginação. Compreender de onde viemos e a nossa importância para a história que será contada daqui pra frente.
GraffitiStreet
O seu trabalho é cheio de símbolos, emojis, corações, sapatos de tijolo, cães, celulares e outros objetos que parecem fazer parte do seu próprio universo. Como é que essas personagens e símbolos entraram no seu mundo?
ENIVO
Cada símbolo tem uma forte importância para mim, elas conectam e transmitem emoções, lembranças e enigmas. São símbolos do passado, presente e futuro, fazem as pessoas pensar e refletir.
GraffitiStreet
Quando futuras gerações olharem para São Paulo neste momento da história, o que é que você espera que o seu trabalho revele sobre a cidade e as pessoas que vivem nela?
ENIVO
Espero que meu trabalho revele a alegria de estar vivo. Que as cores sejam medicina para as pessoas que sofrem nas ruas, para os corações desamparados, que dê conforto e tranquilidade para alguém que está atrasado dentro de um ônibus cheio, que dê fé e esperança para os que estão às margens. Que os negros e periféricos se reconheçam nesse gesto de carinho e generosidade!
GraffitiStreet
Como cofundador da A7MA na Vila Madalena, você vê a galeria como uma ponte entre artistas da periferia e o sistema formal de arte de São Paulo?
ENIVO
A A7MA Galeria é um grande portal, é um Laboratório de talentos, uma incubadora para novos artistas, há 14 anos eu me juntei a outros amigos e fundamos a A7MA por falta de oportunidade e reconhecimento da Arte contemporânea. Andamos sempre na contramão do sistema, com isso somos reconhecidos como a principal galeria de street art da américa latina!, com mais de 140 exposições já lançamos muitos artistas para o mundo e nos orgulhamos muito disso. Somos resistência, somos resiliência, somos a arte de rua viva e pulsante nas veias da cidade!
GraffitiStreet
Neste momento você está a desenvolver um projeto ambicioso. Pode-nos contar mais sobre esse projeto e o que o inspirou?
ENIVO
No dia 28/03, dia do meu aniversário, será inaugurado o NUCLE1, Centro integrado de artes. É um prédio com 8 andares e mais de 1500 metros quadrados dedicados totalmente à arte. Inspirado em movimentos como Bauhaus e The Factory, O Nucle1 abrange diversas linguagens como pintura, escultura, gravura, fotografia, aulas regulares de Yoga, pintura, Dança, Circo , Teatro. Teremos espaço para palestra, shows musicais e eventos. Estou muito orgulhoso, ansioso e cansado, ahhah, mas firme e forte junto a minha esposa e meus amigos verdadeiros que me acompanham nessa jornada. É um espaço totalmente independente. No momento estou investindo todo meu tempo e dinheiro nesse novo projeto. Tenho fé que será sucesso absoluto!
GraffitiStreet
Você pode-nos contar mais sobre as belas telas que está apresentando em Urban Equinox, nossa exposição de primavera que abre no dia?
ENIVO
Estou sinceramente muito feliz com esse convite e oportunidade. Quero que as pessoas sintam nossa alegria e energia Brasileira nessa Mostra. Estou positivo e pronto para futuras colaborações.
GraffitiStreet
Admiro muito os seus murais monumentais e também fico fascinada por esses pequenos portais ou universos que você pinta. As caixas que apresentaremos na exposição parecem particularmente especiais. De onde vem a imaginação por trás desses mundos e quanto tempo leva para você criar uma delas?
ENIVO
A série das Caixinhas começou em 2023 quando eu estava em Lisboa na residência artistica de Simon Watson ( meu curador oficial), ganhei algumas caixas de vinho de um amigo colecionador e comecei a pinta-las.. Adorei os resultados, e consequentemente as pessoas passaram a gostar muito também. Tenho as caixinhas em coleções em Lisboa, Munich, New York, Paris, São Paulo e agora em Chichester… Pintar as caixas é muito prazeroso, também muito difícil tecnicamente , muitas vezes preciso quebrar o cabo dos pincéis para conseguir pinta-las, porém quando começo pinta-las eu sou abduzido e a história começa a acontecer, é tudo muito natural, sem planejamento ou esboços prévios. Levo em cada caixa cerca de 48 horas para pintar. é sempre um desafio !
Para Enivo, a pintura começa na rua, mas não termina aí. Ao longo de mais de 20.000 intervenções urbanas, sua prática permanece ancorada na mesma sensação que ele descreve desde o momento em que apertou uma lata de spray pela primeira vez, aos doze anos: liberdade. Essa sensação ainda permeia sua obra hoje, seja em um vasto muro da cidade, uma caixa pintada, uma tela ou dentro dos maiores ecossistemas culturais que ele continua a construir.
Sua história é inseparável de Grajaú, de São Paulo e das pessoas que o moldaram ao longo do caminho: amigos, mentores, alunos, comunidades e aqueles cuja presença permanece na memória. Através da cor, do símbolo e do gesto, Enivo cria uma linguagem visual que carrega alegria, luta, ancestralidade, ternura e sobrevivência, enquanto também imagina futuros cósmicos fundamentados na identidade afro-brasileira.
Em suas mãos, a arte urbana é uma oferenda à cidade e àqueles que a percorrem, um arquivo vivo de afeto, resistência e imaginação. Enivo pinta energia e história, acreditando que a arte pode abrir um novo caminho no mundo.
Com a inauguração do NUCLE1, a sensação é de um ponto de expansão, um núcleo de onde novas energias, vozes e possibilidades continuarão a emergir. Com o instinto, a imaginação e a determinação incansável de Enivo, o movimento já está em curso, já em órbita.
Traga a energia das ruas de São Paulo para a sua casa com as obras de Enivo – explore a coleção aqui
Translated by Joana Rosa